Chuvas no Sul e Sudeste: como o seu voto ajuda a prevenir novas enchentes

Das tragédias em SC e PR ao recorde de chuva em SP, adaptação climática custa dinheiro público e exige cobrança direta nas urnas

São Paulo (SP), 10/09/2026. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

As chuvas que caíram nos últimos dias atingiram com força diferentes regiões do Sul e do Sudeste do país, deixando um rastro de alagamentos, deslizamentos de terra, estradas interditadas e centenas de pessoas desalojadas e desabrigadas.

Em Santa Catarina, 17 cidades decretaram situação de emergência. No Paraná, tempestades e tornados afetaram milhares de pessoas, provocando também a morte de uma família. Em São Paulo, o acumulado de chuva chegou a 198,2 mm nos primeiros 12 dias de setembro. O volume colocou este setembro como o quarto mês mais chuvoso desde o início das medições, em 1943. Outras regiões do estado também foram impactadas, como a Baixada Santista e, no Vale do Ribeira, a cidade de Eldorado ficou alagada. 

Uma publicação da organização Climax.Now resume muito bem a raiz deste cenário: os desastres socioambientais não começam quando a água sobe, começam na eleição.

Planos climáticos precisam sair do papel

Ter um plano de adaptação é um passo importante, mas sem orçamento, prazo, implementação e fiscalização não protege ninguém. 

Nos últimos anos, diferentes esferas governamentais avançaram em instrumentos, como o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC) de São Paulo e o Plano Diretor de Drenagem da capital. A prefeitura paulistana informou a entrega de seis novos piscinões em 2025, totalizando 853 mil m³ de capacidade. 

Porém, o aumento da frequência de eventos severos exige mais do que obras pontuais, e muito mais do que piscinões e reservatórios. Em São Paulo, por exemplo, o governo estadual reduziu em mais de 50% os recursos destinados à preparação para enchentes em 2026, na comparação com 2025, e a verba para proteção de mananciais recuou 33%. Os cortes mostram que, mesmo diante do aumento dos riscos, a prevenção ainda perde espaço no orçamento público. 

As chuvas, assim como outros eventos climáticos, expõem a profunda desigualdade das nossas cidades. Enquanto nas áreas centrais o impacto se resume ao trânsito ou planos cancelados, nas periferias o resultado é a perda de bens e o risco real à vida, um reflexo de escolhas de gestões que historicamente priorizam os grandes centros em detrimento dos bairros mais vulneráveis. 

O Brasil já perdeu cerca de R$110 bilhões por ano do Produto Interno Bruto (PIB) devido a eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas, segundo estimativa do relatório “Impactos Econômicos de Eventos Extremos no Brasil”.

Como deve funcionar a adaptação climática na vida real?

Reservatórios e piscinões resolvem apenas uma parte do problema. Uma estratégia completa de enfrentamento exige medidas de adaptação e resiliência climática elaboradas e implementadas junto com as pessoas mais impactadas, conforme aponta o relatório As soluções dos territórios: Adaptação Climática Baseada em Comunidades, lançado este ano pelo Greenpeace Brasil, e exige também Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e políticas estruturantes: 

  • Proteção e contenção de encostas: Obras de engenharia e reflorestamento para evitar deslizamentos letais em morros e serras.
  • Expansão de áreas permeáveis e parques alagáveis: Criação de solos capazes de absorver a água da chuva antes que ela sobrecarregue o sistema de drenagem.
  • Renaturalização de córregos e bacias hidrográficas: Recuperação da vegetação ciliar para conter cheias nas áreas urbanas e rurais.
  • Alertas e rotas de fuga funcionais: Sistemas da Defesa Civil operantes, capazes de instruir e salvar vidas em tempo real.
  • Programa de habitação urbana segura e criação de abrigos temporários estruturados próximos às comunidades ou áreas de risco.
  • Macro e micro drenagem constante nos bueiros, valas, canais de esgoto. 

Todas essas medidas demandam planejamento permanente e, principalmente, dinheiro público alocado com prioridade.

Vitória Oliveira, do grupo de voluntários do Greenpeace Brasil em João Pessoa, no Corre de Quebrada realizado na Expo Favela Paraíba, em setembro de 2026. © João Aires / Greenpeace

Orçamento público e a força do seu voto

A população brasileira está cada vez mais consciente do papel da política no combate às tragédias climáticas. 

Segundo a Pesquisa Cidades e Adaptação Climática, realizada pelo Greenpeace Brasil entre fevereiro e março deste ano, com quase 5 mil pessoas de todas as regiões do país, contatadas por email e também via Redes Sociais:

  • 56,8% respondeu que priorizaria candidatos que tivessem propostas voltadas para adaptação climática
  • 77,8% afirmou acreditar que as cidades podem sim ser preparadas para enfrentar os eventos extremos

Embora obras de drenagem e limpeza de córregos sejam executadas pelas prefeituras e governos estaduais, a origem dos grandes recursos vem do governo federal. É no Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado) que se define a divisão do Orçamento da União, o Fundo Clima, o envio de verbas de emergência da Defesa Civil e as leis nacionais de habitação e saneamento.

O que cobrar dos candidatos na eleição?

Seja no combate ao calor extremo ou no controle de enchentes, políticas de adaptação só funcionam com recursos garantidos. Em 2026, a escolha de deputados e senadores determinará se o dinheiro será direcionado para essas ações e quem vai fiscalizar cada real investido.

Por isso, vale olhar para além das promessas genéricas sobre as questões climáticas e fazer perguntas como: quanto dinheiro está sendo destinado para prevenção de desastres? Quais regiões estão sendo priorizadas? O que já foi feito? E quem continua desprotegido? 

A chuva pode até não escolher onde cair, mas o poder público escolhe onde e como investir para reduzir seus impactos.

By Ação Verde

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