Descubra a trajetória de luta dos povos que habitam as águas na preservação dos manguezais
Ao pensarmos sobre o oceano, frequentemente visualizamos praias, ondas e baleias. No entanto, a vida marinha tem seu início muito antes de alcançar o vasto mar. Ela se desenvolve onde os rios se encontram com o oceano, entre raízes que vão e voltam ao ritmo das marés.
Esse ambiente é conhecido como manguezal.
Definição e relevância ecológica dos manguezais
Os manguezais são muito mais do que simples florestas litorâneas; eles funcionam como verdadeiros berçários para a vida marinha. Entre suas funções, destacam-se:
- Fornecimento de abrigo e alimento para diversas espécies, como peixes, camarões e caranguejos.
- Proteção das costas contra a erosão e fenômenos climáticos severos.
- Armazenamento de carbono, contribuindo para mitigar os efeitos das mudanças climáticas globais.
Esses ecossistemas sustentam uma das maiores diversidades biológicas do planeta e beneficiam milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, pescadores artesanais dependem diretamente dos manguezais para obter alimento, sustento e preservar suas tradições culturais.
É evidente que proteger os manguezais vai além da conservação de uma paisagem natural. Trata-se de salvaguardar modos de vida, fortalecer a segurança alimentar, preservar a biodiversidade e manter um patrimônio que favorece toda a sociedade.
A origem do Dia Internacional dos Manguezais
Nos anos 90, uma nova ameaça surgiu em diversos países tropicais: a expansão da carcinicultura industrial. Grandes áreas de manguezais foram desmatadas para dar espaço à criação intensiva de camarões, comprometendo ecossistemas inteiros e limitando o acesso das comunidades às áreas de pesca e coleta.
Um caso emblemático dessa disputa ocorreu em Muisne, na costa do Equador.
Em 1998, comunidades locais mobilizadas pela Fundação de Defesa Ecológica do Equador convocaram o Greenpeace Internacional para denunciar a destruição dos manguezais promovida pela carcinicultura. O navio do Greenpeace Rainbow Warrior chegou ao país para apoiar uma campanha que rapidamente obteve visibilidade mundial.
Durante uma manifestação pacífica para desmontar um viveiro de camarões construído ilegalmente em um manguezal, o ativista Hayhow Daniel Nanoto, natural da Micronésia, sofreu um ataque cardíaco e faleceu.
Sua morte impactou profundamente todos os envolvidos naquela mobilização. No entanto, seu legado foi muito mais abrangente do que aquela tragédia isolada.
A iniciativa em defesa dos manguezais tornou-se uma das primeiras grandes mobilizações internacionais do Greenpeace voltadas à articulação entre conservação da biodiversidade, justiça ambiental e direitos das comunidades tradicionais. Essa mobilização ajudou a criar uma rede latino-americana dedicada à proteção dos manguezais que ainda opera hoje e transformou o dia 26 de julho em um símbolo de resistência. Posteriormente, essa data foi reconhecida pela UNESCO como o Dia Internacional para a Conservação do Ecossistema Manguezal.
“Mais do que uma denúncia ambiental, aquela campanha representou um marco na luta socioambiental. Foi uma das primeiras grandes mobilizações internacionais do Greenpeace reunindo conservação da biodiversidade, justiça ambiental e defesa dos direitos das comunidades tradicionais — princípios que guiam muitas das nossas lutas pela proteção dos oceanos atualmente”, observa Bruna Canal, porta-voz do Greenpeace Brasil na área de Oceanos.
Caso exemplar de resistência comunitária no Extremo Sul da Bahia
Enquanto as comunidades equatorianas lutavam por seus manguezais, um conflito semelhante começava a surgir no litoral do Extremo Sul da Bahia.
A região é lar de um dos mais significativos complexos de manguezais e estuários do Brasil, interligado ao Banco dos Abrolhos, onde esses ambientes atuam como essenciais berçários para a vida marinha. Muitas espécies dependem deles para sustentar os recifes, os rios e as atividades pesqueiras artesanais locais.
No final da década de 90, a carcinicultura também começou a ameaçar esse território.
Diante desse desafio, as comunidades ribeirinhas uniram forças com organizações da sociedade civil para realizar um extenso trabalho de mobilização visando proteger seus modos de vida e assegurar o direito coletivo sobre seu território.
Foi dessa articulação que surgiu o Grupo Pró-RESEX, responsável por viabilizar a criação da Reserva Extrativista de Canavieiras, estabelecida em 2006.
Anos depois, uma nova mobilização impediria a instalação de um grande projeto de carcinicultura na área conhecida como Cassurubá e contribuiria para formalizar a Reserva Extrativista de Cassurubá, criada em 2009.
A exemplo do Equador, foram os povos das águas que tomaram à frente na defesa dos manguezais.
As Reservas Extrativistas simbolizam algo além de meras áreas protegidas; elas reconhecem que conservar a natureza é indissociável da garantia dos direitos das populações tradicionais.
Desafios atuais: A exploração petrolífera na Foz do Amazonas
Atualmente,a região amazônica abriga a maior extensão contínua de manguezais no mundo. Este território é onde rios, florestas e oceanos se encontram para sustentar uma biodiversidade excepcional e o modo de vida de milhares de pescadores artesanais, extrativistas, quilombolas e povos indígenas.
No entanto, essa história de resistência ainda não chegou ao fim.
A área enfrenta um momento crítico devido ao avanço da exploração petrolífera na Bacia da Foz do Amazonas. A abertura dessa nova fronteira em busca por combustíveis fósseis ameaça um dos ecossistemas mais ricos e frágeis do planeta , suscitando preocupações que ultrapassam apenas possíveis vazamentos de óleo.
Menos de três meses após o início das perfurações no Bloco 59, houve um vazamento aproximado de 15 mil litros de fluido utilizado nas perfurações. Esse incidente suspendeu as operações e evidenciou os riscos associados à atividade em uma região com tamanha complexidade ambiental. O episódio reforçou advertências feitas há anos por organizações civis e pesquisadores: a sensibilidade desse território significa que qualquer erro pode ter repercussões difíceis de prever.
Além disso, o processo licitatório continua sendo alvo de questionamentos. Organizações socioambientais apontam que as permissões foram concedidas sem realizar consultas livres, prévias e informadas com as comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais potencialmente afetadas. Também foram levantadas preocupações sobre falhas nos estudos ambientais realizados e nos planos para responder a possíveis acidentes.
A trajetória dos manguezais evidencia que esperar danos ocorrer nunca foi uma solução viável. strong>No Equador ou nas Reservas Extrativistas em Canavieiras e Cassurubá, as comunidades atuaram proativamente antes que fosse tarde demais para resguardar seus territórios.
A importância da proteção dos manguezais para o futuro oceânico strong>
A história iniciada em Muisne passou pelos estuários em Canavieiras e Cassurubá até chegar à costa amazônica nos relembra que os manguezais são muito mais do que simples árvores adaptadas à água salgada. p >
Eles constituem berçários vitais para a biodiversidade , aliados no combate à crise climática , fontes alimentares , culturais e identitárias para milhões . p >
Há quase trinta anos , as comunidades equatorianas ensinaram ao mundo como defender os manguezais pode unir pessoas diferentes em torno da mesma causa . No Brasil , os povos ligados ao mar continuam escrevendo essa história diariamente . p >
Neste Dia Internacional dos Manguezais , celebrar este ecossistema é também reconhecer aqueles que dedicam suas vidas à sua proteção . strong > p >
Precisamos barrar o avanço da exploração petrolífera na Bacia da Foz do Amazonas . Proteger essa região é proteger os povos ligados ao mar e suas formas tradicionais de vida . Junte-se a essa luta! p >
