Manual oferece diretrizes para transição da pecuária a sistemas agroflorestais

A pecuária é frequentemente ligada ao desmatamento, à diminuição da biodiversidade e ao agravamento da crise climática. Em contrapartida, a agrofloresta, que integra a produção de alimentos, contribui para a saúde do solo, preserva a diversidade biológica, reduz a emissão de gases do efeito estufa e proporciona alimentos mais nutritivos para os consumidores. Além disso, a adoção de sistemas agroflorestais pode resultar em um aumento significativo na renda dos agricultores, podendo chegar ao dobro em comparação com a pecuária convencional. Contudo, essa transição exige planejamento e conhecimento adequado.

Visando facilitar essa mudança, foi lançado o guia “Semeando o Amanhã”, que traz orientações práticas para ajudar na conversão da pecuária para sistemas agroflorestais. O material apresenta dados relevantes, casos de sucesso, respostas às dúvidas frequentes e um passo a passo que torna o planejamento dessa transformação mais acessível e adaptável à realidade de cada propriedade rural. O guia destaca ainda as vantagens de aumentar a renda dos produtores, diversificar as culturas e promover benefícios sociais e ambientais.

O documento oferece diretrizes sobre como operacionalizar sistemas agroflorestais (SAFs), propondo um modelo que combina incremento da renda no campo com regeneração ambiental e segurança alimentar. Essa abordagem representa uma alternativa econômica sustentável para a agricultura familiar.

Aline Baroni, diretora executiva da ProVeg Brasil, enfatiza: “Este guia é crucial diante da necessidade urgente de reestruturar o sistema alimentar brasileiro. A aceleração na transição da pecuária para as agroflorestas, priorizando a produção vegetal, é uma estratégia eficaz para garantir a segurança alimentar e preservar o meio ambiente enquanto recupera áreas degradadas.” O guia foi desenvolvido em colaboração com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep).

No Brasil, cerca de 60% das emissões de gases de efeito estufa estão associadas à pecuária, que também é responsável por 90% do desmatamento na Amazônia. Apesar da agricultura ocupar apenas metade das áreas destinadas à pecuária, ela fornece quase o dobro das calorias consumidas pela população.

Ao incentivar a transição para SAFs vegetais, o setor agrícola pode otimizar o uso dos recursos disponíveis. Essa mudança é essencial para que o Brasil atinja suas metas climáticas internacionais e fortaleça a agricultura familiar, criando um modelo rural que respeita os limites do planeta.

Aline Baroni ressalta: “As agroflorestas vegetais podem ser fundamentais para conectar as discussões sobre sistemas alimentares e uso do solo realizadas na COP30 com as práticas produtivas atuais. Com este guia, oferecemos apoio aos produtores e extensionistas rurais. A transição justa precisa se transformar em uma estratégia concreta que traga prosperidade às áreas rurais.”

Clima, renda e alimentação saudável

O conteúdo do guia é fundamentado no relatório “Aumentando a Renda, Respeitando o Planeta, Nutrindo Pessoas”, coordenado pela ProVeg Brasil em parceria com OCA (Organização Cooperativa de Trabalho, Serviços, Projetos e Consultorias em Agroecologia).

Os resultados desse estudo são impressionantes: ao migrar da pecuária convencional para SAFs vegetais, os produtores conseguem dobrar sua renda líquida por hectare em média. Em situações onde há baixa produtividade na pecuária substituída por sistemas diversificados com acesso a mercados especiais, essa abordagem supera financeiramente todas as modalidades de pecuária analisadas nos diferentes biomas brasileiros.

Além dos benefícios financeiros destacados pelo relatório, também são evidenciados os impactos sociais e climáticos gerados pela transição justa. Enquanto a pecuária proporciona apenas 7 empregos para cada R$ 1 milhão produzido, as agroflorestas geram até 30 postos de trabalho, ajudando assim no combate ao êxodo rural.

A transformação das pastagens em sumidouros de carbono não só gera emissões negativas como também contribui significativamente na mitigação dos efeitos da crise climática. O estudo conclui ressaltando a urgência de políticas públicas e iniciativas financeiras que viabilizem essa nova fronteira produtiva no campo.

Conheça o projeto piloto no Paraná

O Projeto Cultiva surge da experiência do agricultor familiar Seu José. Ao longo dos anos ele procurou alternativas viáveis para garantir a sustentabilidade econômica da propriedade. Após vivenciar desafios com avicultura e pecuária leiteira — ambos marcados por altos custos — sua família decidiu iniciar em 2025 uma transição para um sistema agroflorestal com apoio da ProVeg Brasil. Eles começaram gradualmente a vender seu rebanho e reinvestir na nova produção diversificada que inclui hortaliças, frutas, tubérculos, café sombreado e erva-mate além do reflorestamento com árvores nativas.

By Ação Verde

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