Das tragédias em SC e PR ao recorde de chuva em SP, adaptação climática custa dinheiro público e exige cobrança direta nas urnas

As chuvas que caíram nos últimos dias atingiram com força diferentes regiões do Sul e do Sudeste do país, deixando um rastro de alagamentos, deslizamentos de terra, estradas interditadas e centenas de pessoas desalojadas e desabrigadas.
Em Santa Catarina, 17 cidades decretaram situação de emergência. No Paraná, tempestades e tornados afetaram milhares de pessoas, provocando também a morte de uma família. Em São Paulo, o acumulado de chuva chegou a 198,2 mm nos primeiros 12 dias de setembro. O volume colocou este setembro como o quarto mês mais chuvoso desde o início das medições, em 1943. Outras regiões do estado também foram impactadas, como a Baixada Santista e, no Vale do Ribeira, a cidade de Eldorado ficou alagada.
Uma publicação da organização Climax.Now resume muito bem a raiz deste cenário: os desastres socioambientais não começam quando a água sobe, começam na eleição.
Planos climáticos precisam sair do papel
Ter um plano de adaptação é um passo importante, mas sem orçamento, prazo, implementação e fiscalização não protege ninguém.
Nos últimos anos, diferentes esferas governamentais avançaram em instrumentos, como o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC) de São Paulo e o Plano Diretor de Drenagem da capital. A prefeitura paulistana informou a entrega de seis novos piscinões em 2025, totalizando 853 mil m³ de capacidade.
Porém, o aumento da frequência de eventos severos exige mais do que obras pontuais, e muito mais do que piscinões e reservatórios. Em São Paulo, por exemplo, o governo estadual reduziu em mais de 50% os recursos destinados à preparação para enchentes em 2026, na comparação com 2025, e a verba para proteção de mananciais recuou 33%. Os cortes mostram que, mesmo diante do aumento dos riscos, a prevenção ainda perde espaço no orçamento público.
As chuvas, assim como outros eventos climáticos, expõem a profunda desigualdade das nossas cidades. Enquanto nas áreas centrais o impacto se resume ao trânsito ou planos cancelados, nas periferias o resultado é a perda de bens e o risco real à vida, um reflexo de escolhas de gestões que historicamente priorizam os grandes centros em detrimento dos bairros mais vulneráveis.
O Brasil já perdeu cerca de R$110 bilhões por ano do Produto Interno Bruto (PIB) devido a eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas, segundo estimativa do relatório “Impactos Econômicos de Eventos Extremos no Brasil”.

Como deve funcionar a adaptação climática na vida real?
Reservatórios e piscinões resolvem apenas uma parte do problema. Uma estratégia completa de enfrentamento exige medidas de adaptação e resiliência climática elaboradas e implementadas junto com as pessoas mais impactadas, conforme aponta o relatório As soluções dos territórios: Adaptação Climática Baseada em Comunidades, lançado este ano pelo Greenpeace Brasil, e exige também Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e políticas estruturantes:
- Proteção e contenção de encostas: Obras de engenharia e reflorestamento para evitar deslizamentos letais em morros e serras.
- Expansão de áreas permeáveis e parques alagáveis: Criação de solos capazes de absorver a água da chuva antes que ela sobrecarregue o sistema de drenagem.
- Renaturalização de córregos e bacias hidrográficas: Recuperação da vegetação ciliar para conter cheias nas áreas urbanas e rurais.
- Alertas e rotas de fuga funcionais: Sistemas da Defesa Civil operantes, capazes de instruir e salvar vidas em tempo real.
- Programa de habitação urbana segura e criação de abrigos temporários estruturados próximos às comunidades ou áreas de risco.
- Macro e micro drenagem constante nos bueiros, valas, canais de esgoto.
Todas essas medidas demandam planejamento permanente e, principalmente, dinheiro público alocado com prioridade.

Orçamento público e a força do seu voto
A população brasileira está cada vez mais consciente do papel da política no combate às tragédias climáticas.
Segundo a Pesquisa Cidades e Adaptação Climática, realizada pelo Greenpeace Brasil entre fevereiro e março deste ano, com quase 5 mil pessoas de todas as regiões do país, contatadas por email e também via Redes Sociais:
- 56,8% respondeu que priorizaria candidatos que tivessem propostas voltadas para adaptação climática
- 77,8% afirmou acreditar que as cidades podem sim ser preparadas para enfrentar os eventos extremos
Embora obras de drenagem e limpeza de córregos sejam executadas pelas prefeituras e governos estaduais, a origem dos grandes recursos vem do governo federal. É no Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado) que se define a divisão do Orçamento da União, o Fundo Clima, o envio de verbas de emergência da Defesa Civil e as leis nacionais de habitação e saneamento.

O que cobrar dos candidatos na eleição?
Seja no combate ao calor extremo ou no controle de enchentes, políticas de adaptação só funcionam com recursos garantidos. Em 2026, a escolha de deputados e senadores determinará se o dinheiro será direcionado para essas ações e quem vai fiscalizar cada real investido.
Por isso, vale olhar para além das promessas genéricas sobre as questões climáticas e fazer perguntas como: quanto dinheiro está sendo destinado para prevenção de desastres? Quais regiões estão sendo priorizadas? O que já foi feito? E quem continua desprotegido?
A chuva pode até não escolher onde cair, mas o poder público escolhe onde e como investir para reduzir seus impactos.
