Especialista esclarece como o fenômeno El Niño acentua o aquecimento dos oceanos em meio à crise climática, resultando em secas, enchentes e a degradação de ecossistemas marinhos.
O El Niño, que se caracteriza pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico, é um dos fenômenos climáticos mais impactantes do mundo, capaz de modificar padrões de precipitação, temperatura e circulação atmosférica em várias partes do globo.
Impactos do El Niño no Brasil
No território brasileiro, esse fenômeno resulta em secas nas regiões Norte e Nordeste e provoca chuvas intensas no Sul, além de causar alterações significativas no Atlântico Sul. Com o agravamento do aquecimento global, os efeitos do El Niño tendem a ser intensificados, transformando eventos moderados em situações extremas que afetam severamente a biodiversidade, as atividades econômicas e as comunidades vulneráveis socioambientalmente.
Para compreender como esse fenômeno se manifesta na América do Sul, entrevistamos a oceanógrafa Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora sobre extremos climáticos nos oceanos e continentes. Ela é uma das colaboradoras do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e compartilha sua conexão com os oceanos desde a infância e as mudanças que testemunhou nos ecossistemas marinhos:
“Quando eu era criança, costumava coletar conchas na praia; depois percebi que não havia mais nada; nenhuma concha para ser encontrada. […] Sempre tive facilidade nas matérias exatas, e na oceanografia o que mais me fascinou foi a parte física – estudamos correntes marítimas, marés… mas não tanto a biologia; focamos no oceano como atmosfera.
El Niño e suas conexões com os oceanos
O El Niño é definido por um aumento inesperado da temperatura das águas do Oceano Pacífico. Considerando que o Pacífico abrange metade da superfície terrestre, qualquer alteração nessa vasta área tem repercussões diretas na atmosfera global.
- A formação do El Niño inicia-se quando os ventos alísios tropicais enfraquecem, normalmente encargados de empurrar as águas quentes do Pacífico para regiões como Indonésia e Austrália.
- Com essa mudança nos ventos, a água quente se desloca em direção à costa sul-americana, provocando um aquecimento anômalo no oceano. Esse fenômeno impacta a formação de nuvens e a circulação atmosférica, gerando consequências climáticas globais.
- A natureza cíclica do El Niño faz com que ocorra em intervalos irregulares de 2 a 7 anos, com duração entre 9 a 12 meses. A intensidade e o tempo entre os eventos são variáveis, especialmente devido ao aquecimento global acelerado.
“Durante anos de El Niño, observamos um aumento significativo nas ondas de calor marinhas ao redor do planeta. Quando as águas quentes se movem, elas trazem nuvens densas consigo, alterando toda a circulação atmosférica”, observa Regina Rodrigues.
Definição e impactos das ondas de calor marinhas
As ondas de calor marinhas referem-se a períodos prolongados de aumento da temperatura das águas oceânicas. Eventos extremos como o Super El Niño tendem a aumentar tanto a frequência quanto a intensidade desses episódios. Essa combinação representa uma séria ameaça à saúde da biodiversidade marinha e aos modos de vida dos Povos do Mar, além de causar prejuízos em setores econômicos dependentes dos recursos marítimos.
Os principais impactos incluem:
- Mortalidade e modificação dos ciclos vitais de várias espécies marinhas;
- Danos à pesca, à aquicultura e riscos à segurança alimentar;
- Aumento dos riscos à saúde humana e disseminação de doenças;
- Carga adicional sobre ecossistemas e comunidades já vulneráveis às mudanças climáticas.
A percepção inicial das ondas de calor marinhas acontece através de mudanças na superfície oceânica. No entanto, seus efeitos se manifestam também em diversas profundidades da coluna d’água. Assim, as consequências do aquecimento podem afetar desde as zonas costeiras até as regiões mais profundas do oceano.
A dualidade de secas e enchentes causadas pelo El Niño
A movimentação das águas quentes no Pacífico provoca alterações na circulação atmosférica que geram ondas invisíveis que se propagam por todo o globo. Na América do Sul, essas ondas criam bloqueios atmosféricos que dificultam a passagem das frentes frias tradicionais, mudando o padrão habitual das chuvas no continente.
Diante desse bloqueio atmosférico instaurado, as frentes frias enfrentam dificuldades para seguir seu curso habitual. Elas permanecem estacionadas em determinadas áreas por períodos prolongados,s intensificando chuvas localizadas e aumentando os riscos de enchentes.
Consequentemente, enquanto algumas áreas ficam sujeitas a chuvas excessivas devido à permanência dessas frentes frias, outras regiões experimentam secas acentuadas. Portanto, é comum associar o fenômeno El Niño com secas nas regiões Norte e Nordeste brasileiras simultaneamente ao aumento da probabilidade de queimadas em biomas como o Pantanal. Essa complexidade demonstra como um único evento climático pode gerar efeitos opostos nas diversas regiões brasileiras.
A intensificação atual do El Niño
Ainda que seja um fenômeno natural, os efeitos do El Niño estão sendo observados em um mundo cada vez mais impactado pelas ações humanas. O uso intenso de combustíveis fósseis e o desmatamento elevam os níveis de gases responsáveis pelo efeito estufa na atmosfera, exacerbando o aquecimento global. Esse excesso térmico acaba sendo absorvido majoritariamente pelos oceanos que acumulam energia cada vez maior.
Os oceanos absorvem mais de 90% do calor excedente resultante das emissões dos gases estufa no sistema climático da Terra.
Dessa forma, embora os gases estufa não sejam responsáveis diretos por provocar um Super El Niño, eles potencializam suas consequências tornando-as ainda mais severas.
El Niño: impacto sobre os recifes coralinos
Os recifes corais são considerados um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade no planeta e também os mais suscetíveis aos efeitos do aquecimento oceânico. O aumento da temperatura das águas gera estresse térmico nos corais; assim torna-se cada vez mais evidente o branqueamento como sintoma da crise climática atual.
A professora Regina Rodrigues ressalta que eventos como o El Niño podem agravar essa situação. No Nordeste brasileiro, uma diminuição na cobertura nubosa resulta em maior incidência solar sobre as águas oceânicas—o que aquece tanto o ar quanto estimula uma absorção térmica adicional pelo oceano. As temperaturas elevadas intensificam ainda mais o estresse nos corais levando-os a expulsar suas zooxantelas , microalgas essenciais que fornecem nutrientes aos corais —sem essas algas simbióticas eles perdem coloração e proteção estrutural tornando-se frágeis.
Esse processo denominado branqueamento pode não resultar imediatamente na morte dos corais; conforme explica a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), esses organismos podem sobreviver temporariamente ao fenómeno mas tornam-se extremamente vulneráveis devido à perda da principal fonte alimentar além de ficarem propensos a doenças ou morte precoce.
Os maiores episódios globais registrados de branqueamento coral foram coincidentes com eventos extremos ocorridos durante episódios significativos de El Niño incluindo o quarto evento global massivo registrado entre 2023-2024. Segundo Regina Rodrigues os corais estão entre os ecossistemas mais suscetíveis às mudanças climáticas atuais:
“Os corais tropicais já estão bastante comprometidos”.
A Fundação Grupo Boticário aponta através do relatório Oceano sem Mistério, que os recifes têm capacidade para dissipar até 97% da força das ondas; essa habilidade reduz danos provenientes de ressacas ou tempestades além da erosão costeira.
Cerca de 275 milhões pessoas residindo até 30 km próximos aos recifes dependem diretamente dessas funções ecológicas oferecidas por esses ambientes delicados.
Cidades costeiras dependem dos recifes para proteção durante eventos extremos como tempestades ou ressacas.
A perda desses ecossistemas não apenas compromete biodiversidade mas ameaça modos tradicionais de vida sustentados por comunidades ribeirinhas ou pescadores artesanais que necessitam diretamente dos recursos marítimos para sua alimentação ou renda—muitas vezes sendo essas mesmas comunidades as menos responsáveis pela crise climática atual.
Estratégias para enfrentar os impactos do El Niño
Cautelas emergenciais podem ajudar na mitigação imediata dos danos causados por eventos relacionados ao fenômeno—entretanto é através planejamentos estratégicos voltados para longo prazo que nos preparamos melhor contra potenciais extremos advindos dele.
- aumentar a capacidade da Defesa Civil nas áreas costeiras, implementando sistemas eficientes para alerta precoce sobre chuvas fortes , inundações ou deslizamentos;
- priorizar educação climática junto à cultura oceânica, promovendo entendimento acerca das ligações entre clima-global-oceano;
- elaborar planos adaptativos específicos para populações litorâneas vinculadas à pesca artesanal —considerando atividades econômicas locais;
- delinear áreas marinhas protegidas, assegurando conservação ambiental crítica como recifes coralinos ou manguezais oferecendo abrigo térmico necessário para diversidade marinha.
Tais abordagens são preferíveis quando comparadas com ações pontuais implementadas às vésperas dos desastres naturais esperados. Soluções baseadas nas características oceânicas tendem ser duradouras quando implementadas antes da ocorrência das crises climáticas, strong >como proteção adequada às áreas tradicionais além disso ordenação urbana considerando ocupações próximas ao litoral bem como integrar adaptações climáticas às políticas públicas existentes . Os oceanos desempenham papel essencial regulador clima global precisamos assegurar sua função contínua neste contexto.
Em face um cenário onde temperaturas atmosféricas crescem constantemente podendo tornar ocorrência futura cada vez mais intensa ou frequente urge necessidade ação imediata! Como destaca Regina Rodrigues: “‘O intervalo entre eventos relacionados ao El Niñó está diminuindo”. Para efetivamente combater esses desafios precisamos exigir soluções focadas nas causas raízes dessa crise ambiental enquanto fortalecemos capacidade adaptação das populações especialmente aquelas vivendo próximo à costa!
