O Greenpeace Brasil expressa preocupação com o aumento de queimadas e focos de calor identificados antes e após o primeiro turno das eleições, sugerindo que uma nova edição do “Dia do Fogo”, evento ocorrido no Pará em 2019, pode estar se repetindo nos estados do Pará e Amazonas.
Manaus, 22 de outubro de 2026 – Com base em informações coletadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e imagens de satélites da LASA/UFRJ, que revelam um crescimento anômalo de focos de calor e áreas devastadas na Amazônia desde o primeiro turno das eleições, o Greenpeace Brasil alerta para a possibilidade de um “Mês do Fogo”. O termo faz alusão ao “Dia do Fogo”, que em agosto de 2019 resultou em diversos incêndios criminosos organizados no Pará. Naquele episódio, conforme relatado pela Polícia Federal, produtores rurais e empresários se uniram para promover queimadas ilegais como forma de manifestar apoio ao então presidente Jair Bolsonaro.
“Observamos uma similaridade entre os incêndios atuais no Pará e Amazonas e aqueles ocorridos em 2019. Os dados referentes a incêndios florestais na Amazônia a partir do dia 4 de outubro indicam um novo ‘Dia do Fogo’, agora renomeado para ‘Mês do Fogo’, que parece ter sido planejado por criminosos ambientais com interesses eleitorais, visando prejudicar a imagem do governo federal para aumentar o apoio ao candidato Flávio Bolsonaro”, destaca Cristiane Mazzetti, coordenadora do projeto Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil.
Análise dos dados
Dados da LASA revelam que o Pará já contabiliza 912.534 hectares queimados entre os dias 1º e 20 de outubro, representando um aumento alarmante de 503% em comparação ao mesmo intervalo em 2025. Em apenas duas semanas deste mês, a área consumida pelo fogo corresponde a 48,2% do total de queimadas no estado desde janeiro.
No Amazonas, foram registrados 258.678 hectares queimados entre 1º e 20 de outubro, um crescimento impressionante de 1.305% em relação ao ano anterior. Este número já representa mais de 37% da área total queimada desde janeiro.
Os mapas apresentados ilustram as regiões de Manaus (AM) e Santarém (PA) antes e depois do primeiro turno das eleições brasileiras. A concentração elevada de focos de calor após o dia 4 de outubro confirma os dados sobre áreas queimadas identificados pela LASA nesse mesmo período.
Análise dos focos de calor (INPE) entre os dias 27/09/2026 e 03/10/2026 – sete dias antes do primeiro turno
Análise dos focos de calor (INPE) entre os dias 04/10/2026 e 10/10/2026 – sete dias durante e após o primeiro turno
A questão política por trás das queimadas
“Com o aumento da fumaça em Manaus, houve uma distorção na utilização desse tema pela extrema direita para atacar o governo federal, apesar dos esforços realizados nos últimos anos para combater desmatamento e incêndios, que mostraram resultados positivos. No ano passado, por exemplo, a Amazônia registrou apenas 43.131 focos de calor, a menor quantidade desde 1988. É fundamental que as investigações avancem com agilidade e rigor para identificar quem está promovendo essas queimadas neste período eleitoral e quais são suas motivações”, afirma Mazzetti.
Embora tenha havido um aumento significativo nos incêndios este mês no Pará e Amazonas, até agora em 2026 foram contabilizados apenas 41.373 focos na Amazônia, tornando-se o segundo menor total desde 2019.
A porta-voz ainda observa que “usar as queimadas como ferramenta política para angariar votos para candidatos associados ao PL (Partido Liberal) é uma contradição flagrante e uma manipulação do eleitorado, visto que esse partido tem um histórico crítico à preservação ambiental. O candidato à presidência já declarou sua intenção de seguir os passos do pai ao eliminar os ‘entraves ambientais’ ideológicos. É urgente que as investigações sejam finalizadas com precisão e que os responsáveis sejam punidos”.
Novo governador infrator ambiental no Pará
Uma pesquisa realizada pelo Greenpeace Brasil sobre os resultados do primeiro turno das eleições em 2026 revelou a eleição de 38 candidatos com histórico de autuações ambientais. Entre eles destacam-se o futuro governador do Pará, Daniel Barbosa Santos (PODE), junto à vice-governadora Ellayne Cristina Gurgel de Almeida (PL), ambos multados pelo Ibama por infrações ambientais. A multa imposta ao futuro governador atingiu R$ 1,4 milhão em junho de 2024.
Vale ressaltar que na cidade de Novo Progresso, no Pará – local que liderou as queimadas criminosas durante o “Dia do Fogo” em 2019 – cerca de 84% dos votos foram destinados ao candidato Flávio Bolsonaro (PL).
