A baunilha é uma das especiarias mais consumidas no mundo e figura entre os ingredientes naturais de maior valor agregado nos mercados alimentício, terapêutico e cosmético. De acordo com dados da Fortune Business Insights, o mercado global de extrato de baunilha, avaliado em US$ 4,45 bilhões em 2024, deve atingir US$ 6,46 bilhões em 2034, impulsionado pela crescente demanda por produtos naturais em substituição aos sintéticos.
Historicamente, a produção mundial de baunilha se concentra em poucas regiões. A espécie Vanilla planifolia, conhecida como baunilha de Madagascar, corresponde por cerca de 40% da produção global e registrou exportações superiores a US$ 260 milhões em 2023, segundo dados da Tridge. Essa concentração, no entanto, expõe o mercado a riscos significativos, como perda da biodiversidade, eventos climáticos extremos, instabilidade socioeconômica e oscilações severas de preço, que afetam diretamente produtores e indústrias.
Diante desses desafios, o setor global busca alternativas estratégicas para ampliar a variabilidade genética, reduzir a dependência de uma única origem e garantir segurança no abastecimento. Uma das soluções adotadas foi a expansão do uso de essências artificiais, porém, essa escolha não atende integralmente à crescente demanda por ingredientes naturais, funcionais e alinhados aos princípios da bioeconomia. Além disso, o setor está sujeito às novas regras sobre Sequenciamento Genético Digital (DSI) que têm ganhado relevância desde a 16ª COP de Diversidade Biológica em Cali.
É nesse contexto que o Brasil se destaca como um ator estratégico, devido à sua vasta biodiversidade que possibilita oferecer ingredientes naturais de alto valor, provenientes de cadeias produtivas inclusivas, responsáveis, rastreáveis e alinhadas à conservação dos biomas nacionais.
Baunilha do Cerrado: diversidade, aroma e bioeconomia
Entre as espécies nativas com potencial de transformação está a Vanilla pompona, conhecida como baunilha do Cerrado. Essa espécie pode ser cultivada em áreas de conservação através de técnicas de manejo agroflorestais, garantindo condições adequadas para seu desenvolvimento.
Reconhecida por seu aroma quente e adocicado, a baunilha do Cerrado apresenta um perfil sensorial diferenciado. Produzida no Brasil e com cadeia rastreável, essa variedade valoriza a origem, a autenticidade e a sustentabilidade. Versátil em aplicações culinárias, é adequada para sobremesas, cafés, chás, smoothies, caldas e diversas preparações. Com um tempo de frutificação de até cinco anos, o cultivo demanda planejamento de longo prazo, capacitação técnica e apoio às comunidades produtoras, sendo considerada uma espécie ameaçada, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
O desenvolvimento sustentável dessa cadeia produtiva tem o potencial de gerar impactos econômicos, sociais e ambientais positivos, promovendo renda local, valorização do conhecimento tradicional e conservação do bioma. Além disso, posiciona o Brasil como um fornecedor estratégico de um ingrediente natural que atende às demandas do mercado internacional.
Como uma alternativa sustentável e inovadora, a baunilha brasileira amplia a gama de origens, reduz a dependência externa e fortalece a segurança no abastecimento global. Além de agregar valor aos produtos nacionais, contribui para consolidar o Brasil como referência em bioeconomia, sustentabilidade e exportação de ingredientes naturais de alto valor agregado.
Compromisso com sustentabilidade e impacto positivo
“Ao valorizar a biodiversidade brasileira e investir em cadeias produtivas responsáveis, podemos transformar o setor de ingredientes naturais, contribuindo para a conservação dos biomas, o fortalecimento da resiliência climática e o uso consciente dos recursos naturais”, afirma Giovanna Cappellano, gerente de ESG e Assuntos Estratégicos na Concepta Ingredients, empresa especializada no fornecimento de soluções naturais para a indústria.
A Concepta Ingredients utiliza a baunilha brasileira cultivada e extraída em projetos integrados em comunidades produtoras, com o uso de três espécies diferentes. Essa iniciativa faz parte do programa Bio Abundância, que contribui para a preservação indireta de mais de 580 mil hectares de vegetação nativa nos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.
Este artigo foi originalmente publicado no site CicloVivo.
