A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que aproximadamente 16% da população global, ou seja, 1 em cada 6 indivíduos, relata sentir solidão. Essa condição afeta pessoas de diversas idades, mas os adolescentes são especialmente vulneráveis. Um dos fatores que contribui para essa sensação é o uso excessivo de dispositivos eletrônicos. Recentemente, uma pesquisa revelou que a forma como as redes sociais são utilizadas pode influenciar tanto o aumento quanto a diminuição da solidão.
As interações significativas nas redes sociais podem fortalecer relacionamentos, permitindo que os usuários compartilhem experiências, enviem mensagens a amigos ou recebam apoio. Em contrapartida, aqueles que se dedicam apenas a navegar por conteúdos sem se envolver ativamente tendem a sentir-se mais solitários. A Universidade de Manchester constatou que o chamado “uso passivo” das redes sociais está associado a níveis elevados de solidão.
Muitas pessoas já se pegaram rolando sem parar pelas telas de seus celulares, gastando um tempo considerável em feeds de redes sociais ou em sites de notícias repletos de informações negativas. Esse comportamento é conhecido como doomscrolling e costuma estar ligado à sensação de mal-estar.
A complexidade da questão vai além do tempo gasto ou do tipo de conteúdo consumido. A pesquisa conduzida pela especialista Rebecca Nowland oferece uma análise abrangente sobre como as redes sociais se relacionam com a solidão.
Redes sociais e solidão
A influência das redes sociais na solidão não depende apenas do tipo de uso (ativo ou passivo), mas também dos motivos que levam as pessoas a utilizá-las. Aqueles que acessam essas plataformas com o intuito de conectar-se com outros tendem a perceber uma diminuição na solidão. Por outro lado, quem recorre às redes sociais como forma de escapar de emoções difíceis ou situações sociais pode acabar intensificando sua solidão. Em algumas situações, a tentativa de substituir interações presenciais por atividades online pode piorar a experiência social.
Outro aspecto importante é a qualidade das conexões offline que cada indivíduo possui. Aqueles que já mantêm vínculos sólidos fora do ambiente virtual têm mais chances de vivenciar experiências positivas online, incluindo apoio emocional e um sentimento de pertencimento. Já os que se sentem isolados no mundo real podem ter dificuldades para obter esses mesmos benefícios nas redes sociais, mesmo sendo usuários frequentes.
A Dra. Rebecca Nowland afirma: “As redes sociais não são intrinsicamente boas ou ruins; o essencial é entender como as pessoas interagem com elas e o que recebem em troca. É necessário ir além das análises simplistas sobre o tempo despendido nas telas. A situação é muito mais complexa, e compreender isso é crucial para promover ambientes online mais saudáveis”.
O design das plataformas também exerce papel relevante nesse contexto. A pesquisa indica que recursos que promovem interações diretas (como mensagens privadas ou compartilhamento de fotos) podem criar um senso de conexão mais forte entre os usuários. Em contrapartida, plataformas voltadas para consumo passivo oferecem menos benefícios emocionais.
Ganhos individuais e coletivos
No final das contas, características pessoais como autoestima, personalidade e tendência à comparação social desempenham um papel significativo na interação online e na percepção das postagens e interações alheias. Cada vivência impacta essa percepção. Interações significativas e comentários encorajadores podem atenuar a solidão, enquanto ser ignorado ou exposto a interações negativas pode agravar esse sentimento, conforme apontado pelo estudo.
A compreensão dessas nuances pode auxiliar na reformulação das plataformas digitais (por parte das grandes empresas tecnológicas) e no fortalecimento de políticas públicas que promovam interações sociais saudáveis. Além dos efeitos sobre saúde mental, o isolamento social está relacionado ao aumento do risco de doenças como AVC e declínio cognitivo. Por outro lado, indivíduos com conexões sociais robustas tendem a apresentar melhor saúde e maior longevidade.
A pesquisa foi divulgada na revista Current Opinion in Behavioral Sciences.
