No mês dedicado ao Orgulho LGBTQIAPN+, surge um convite para refletir sobre as siglas do movimento sob a ótica do Sul Global.
O seguinte texto é uma produção de Rusly Cachina, que atua como porta-voz da Migrantia, uma organização comprometida com a defesa dos direitos e melhoria das condições de vida de imigrantes e refugiados LGBTQIAPN+ na Espanha. Natural da Guiné Equatorial, Rusly é uma mulher trans preta que se encontra atualmente em exílio na Espanha.
Com base em sua experiência, Rusly propõe uma reavaliação das siglas LGBTQIAPN+ a partir da perspectiva do Sul Global. Ela enfatiza que a luta pela preservação ambiental e o orgulho de nossa identidade não devem ser dissociados da memória histórica e dos processos de reparação colonial.
A relação com o Brasil é evidente: as dores, os desafios e a necessidade urgente de resgatar narrativas enfrentadas pelo ativismo afro-queer na Europa reverberam fortemente em nossa própria trajetória e na busca por uma justiça climática que seja intrinsicamente antirracista e inclusiva.
Boa leitura!
Anualmente, especialmente no mês de junho, o Mês do Orgulho LGBTQIA+ toma conta das redes sociais, ruas e instituições com bandeiras, mensagens, discursos e comemorações. São celebrados marcos importantes que reconhecem conquistas em direitos e dão visibilidade a identidades frequentemente marginalizadas ao longo do tempo.
No entanto, essa imagem global pode não ser tão universal quanto parece. Para muitos que vivem no Sul Global, particularmente em contextos africanos e diaspóricos, o mês é vivido com uma gama complexa de emoções: reconhecimento sim, mas também distanciamento, tensões e questionamentos que raramente são contemplados nas narrativas predominantes.
As siglas LGBTQ+ desempenham um papel crucial na construção da visibilidade política e na união de lutas comuns. Contudo, é essencial reconhecer que estas siglas são uma construção histórica enraizada em contextos ocidentais específicos, moldadas por linguagens e categorias que não têm validade universal para compreender gênero e sexualidade.
Quando essas categorias são apresentadas como a única forma válida de nomear a diversidade, corre-se o risco de marginalizar outras existências e identidades que não se encaixam nelas. Nomear vai além da simples descrição; trata-se também de organizar o mundo ao nosso redor.
A neutralidade das siglas?
Embora as siglas LGBTQ+ sejam essenciais para garantir visibilidade política e articular lutas comuns, é necessário entender que elas resultam de construções históricas situadas em contextos ocidentais específicos. As linguagens utilizadas, as categorias criadas e as percepções sobre gênero e sexualidade são limitadas àquela realidade.
Quando se apresenta essas categorias como únicas para representar a diversidade, outras formas de existência podem ser deslegitimadas. Essa abordagem pode invisibilizar identidades que não se encaixam nos moldes estabelecidos. Nomear implica não apenas descrever, mas também categorizar o mundo à nossa volta.
A colonialidade da linguagem e a memória apagada
Antes da colonização europeia no continente africano, existiam diversas maneiras de compreender gênero, corpo e sexualidade que não se restringiam a um modelo binário estrito. Essas diversas compreensões eram únicas em suas particularidades, mas compartilhavam um elemento significativo: estavam intimamente ligadas à espiritualidade. Um exemplo disso é Logun Edé, um orixá menor do panteão iorubá, conhecido como príncipe herdeiro; ele simboliza dualidade, beleza, juventude e transformação ao passar metade do ano no rio (características femininas) e a outra metade na floresta (características masculinas).
No contexto comunitário africano existem práticas como a dos “Maridos Femininos”, onde algumas mulheres nigerianas assumiam papéis masculinos economicamente motivados ao casarem-se com outras mulheres para perpetuar linhagens familiares. Com o advento da colonização, sistemas legais e religiosos foram impostos que reorganizaram essas realidades segundo uma lógica punitiva binária. Tudo o que não se adequava a essa nova ordem era reinterpretado como pecado ou desvio. Um caso emblemático é o de Francisco Manicongo – forçado a deixar o Reino do Congo para o Brasil durante o século XVI no contexto do tráfico transatlântico de escravizados. Ele chegou à Bahia como escravizado provavelmente na segunda metade do século XVI. Sua perseguição estava atrelada não apenas à condição escravizada mas também à sua identidade de gênero expressa através das tradições congolesas associadas às Imbandas, vistas pelas autoridades coloniais como “pecado”.
Francisco foi denunciado à Inquisição, enfrentando riscos severos incluindo possível execução. Seu caso exemplifica como a violência colonial explorou indivíduos enquanto perseguiu dissidências sexuais e de gênero. Nesse processo histórico, tanto os corpos quanto as memórias foram criminalizados.
A reflexão aqui transcende simplesmente buscar “provas” ou tentar descobrir uma história queer africana; trata-se da constatação mais complexa: há múltiplas formas de vida que foram sistematicamente filtradas ou eliminadas pela lógica colonial.
A África tem história queer
Afirmar isso não implica idealizar o passado ou ignorar conflitos internos; significa reconhecer que a diversidade nunca foi uma importação recente.
Diversos contextos africanos abrigaram papéis de gênero não convencionais e figuras históricas cuja existência desafiava as categorias modernas. Muitas dessas memórias sobreviventes estão restritas às narrações orais ou práticas culturais locais; outras foram dilaceradas pelo tempo devido à colonização contínua influenciada pelo neocolonialismo e extremismos religiosos.
A questão central reside menos na ausência de história do que no poder narrativo sobre ela.
O presente queer: desigualdade, guerra e violência
A discussão sobre descolonização deve incluir também o presente; os conflitos armados atuais nos territórios do Sul Global continuam afetando milhões diariamente.
No caso da República Democrática do Congo, por exemplo, conflitos armados envolvendo grupos como o M23 só podem ser compreendidos dentro do contexto mais amplo das economias extrativistas marcadas por décadas de violência estrutural e interesses políticos globais. A violência nessas regiões é palpável; não é um conceito abstrato.
Pessoas frequentemente reduzidas às categorias ocidentais representadas pela sigla LGBTQ+ são conhecidas localmente por nomes como Woubi ou Mashoga. Elas enfrentam estigmas sociais severos além da falta de proteção institucional contra violências diretas num ambiente onde colapsos estatais aumentam abusos variados.
A guerra não diz respeito apenas a disputas territoriais; ela reflete também realidades físicas devastadoras.
Adicionalmente, as crises climáticas introduzem novas camadas complicadoras nos problemas enfrentados por essas comunidades vulneráveis no Sul Global – deslocamento forçado, insegurança alimentar e perda dos meios de subsistência são apenas algumas consequências diretas desses fenômenos climáticos desiguais.
Crisis Climáticas: Desigualdade Global
As crises climáticas trazidas pelos desastres ambientais impactam diferentes populações de maneira desigual dentro do Sul Global. Os efeitos incluem deslocamento forçado assim como insegurança alimentar crescente entre outros danos significativos aos modos tradicionais de vida dessas comunidades vulneráveis.
A emergência climática transcende aspectos ambientais; envolve questões políticas profundas além das sociais.
O Orgulho: um espaço contestado
Neste momento atual onde celebra-se o Orgulho em várias partes do mundo ele pode servir tanto como um espaço comemorativo quanto um espaço repleto de exclusões.
No Sul Global – especialmente entre migrantes racializados ou pessoas negras/trans (como eu mesma) – muitas vezes somos reconhecidos apenas parcialmente: exibidos numa vitrine pública enquanto esquecidos nas realidades cotidianas estruturais. Somos convidados ao diálogo com condições pré-estabelecidas: precisamos nos encaixar em categorias definidas previamente ou traduzir nossas realidades para linguagens alheias que nem sempre nos pertencem plenamente.
Caminhando rumo à descolonização do Orgulho
Descolonizar essa experiência coletiva chamada orgulho não implica simplesmente recusar lutas globais existentes; envolve também reconhecer que existem diversas maneiras legítimas para vivenciar essa diversidade humana sem limitações impostas por definições estreitas.
Significa aceitar que mesmo necessárias tais siglas carecem abrangência totalizando finalmente abrir espaço para outras memórias culturais distintas dentro dessa conversa plural sobre quem somos realmente enquanto sociedade diversificada............. . . . . . . ...
E agora?
A responsabilidade política também é essencial!“A responsabilidade política está intrinsecamente ligada ao nosso cotidiano – exige ouvir ativamente aqueles cujas vozes muitas vezes permaneciam ausentes nesta narrativa coletiva.” O caminho adiante requer consciência profunda sobre desigualdades estruturais persistentes exigindo mudanças reais nas relações sociais estabelecidas.”
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- Tudo isso demanda esforços conjuntos para criar redes solidárias capazes superar divisões históricas.”.”
- “Descolonizar orgulhos implica igualmente entender limites impostos pelas normas dominantes permitindo assim pluralidade emergir genuinamente!” .”
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Por último,
“Rusly Cachina”
atua como porta-voz da Migrantia sendo responsável pelas questões relacionadas à igualdade no âmbito das migrações afro-queer.” Ela possui vasta experiência atuando como coordenadora em diversas iniciativas voltadas diretamente para promoção dos direitos humanos neste campo.”
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Por último,
“Rusly Cachina”
atua como porta-voz da Migrantia sendo responsável pelas questões relacionadas à igualdade no âmbito das migrações afro-queer.” Ela possui vasta experiência atuando como coordenadora em diversas iniciativas voltadas diretamente para promoção dos direitos humanos neste campo.”
