Como os produtos à base de soja contribuem para o desmatamento na Amazônia?

Uma iniciativa do Greenpeace Brasil traz à tona a origem da soja que você consome e alerta sobre sua possível relação com áreas desmatadas na Amazônia. Compreenda por que as empresas do setor falham em cumprir suas promessas de um compromisso de desmatamento zero.

A soja permeia diversos produtos do nosso dia a dia, como óleos, biscoitos, chocolates e até mesmo no frango servido aos domingos. Ela está presente em itens como shampoos, biscoitos recheados, molhos de tomate e margarina. Este ingrediente se tornou tão comum que muitas vezes é invisível, levando poucos a questionar sua proveniência.

Diante disso, decidimos ir até os locais onde esses produtos chegam ao consumidor final no Brasil. Utilizamos adesivos informativos com a mensagem: Se contém soja, pode conter desmatamento. 

Um protesto pacífico pela proteção das florestas

Entre 24 e 27 de agosto, ativistas e voluntários do Greenpeace Brasil realizaram ações em quatro cidades diferentes: Manaus e Belém na Amazônia, Brasília no Cerrado e São Paulo na Mata Atlântica. O objetivo era identificar produtos à base de soja nas prateleiras dos supermercados e colar adesivos com o aviso “Contém soja. Pode conter desmatamento” junto a um QR code que direciona para a campanha Soja sem Desmatamento.

Os produtos selecionados para essa ação não foram escolhidos ao acaso; entre eles estavam marcas de grandes empresas como Cargill e Bunge, além de outros itens que demonstram a presença da soja em lugares inesperados.

  • Óleo de soja e maionese Liza, molho de tomate à bolonhesa Tarantella da Cargill
  • Óleo de soja Soya da Bunge
  • Margarinas
  • Shampoos e condicionadores, sabonetes líquidos que utilizam glicerina ou proteína de soja
  • Chocolates e biscoitos recheados que contêm lecitina de soja como emulsificante
  • Carnes bovinas, suínas e de frango – frequentemente alimentadas com farelo de soja.

O intuito foi evidenciar o caminho da soja, que pode ter sua origem em áreas desmatadas sem que os consumidores percebam. O problema não se restringe a marcas ou produtos individuais; trata-se da totalidade da soja oriunda da Amazônia, região que recentemente perdeu proteções importantes contra o desmatamento. 

A conexão entre a soja e o desmatamento amazônico

Durante quase duas décadas, existiu um compromisso conhecido como Moratória da Soja, onde grandes empresas do setor se comprometeram a não comprar grãos cultivados em áreas desmatadas da Amazônia após julho de 2008. Com o crescimento das exportações e o Brasil se consolidando como maior produtor mundial, o desmatamento associado à produção ficou sob controle. Antes desse acordo, cerca de 30% da expansão da soja ocorreu às custas do desmatamento.

Entretanto, no início de 2026, as mesmas empresas que assinaram esse pacto decidiram abandoná-lo. Companhias como Cargill e Bunge justificaram essa decisão com base em leis estaduais que retiravam benefícios fiscais para aquelas com critérios ambientais mais rigorosos do que os exigidos por lei. Assim, essas empresas optaram por abrir mão do instrumento que ajudou a construir sua imagem sustentável em troca de reduções fiscais temporárias.

Isso implica uma dificuldade significativa em garantir que a soja dos produtos disponíveis nos supermercados não tenha origem em áreas desmatadas na Amazônia. A Moratória era um compromisso voluntário com ampla participação setorial, auditagens independentes e envolvimento da sociedade civil – elementos fundamentais para sua eficácia. Compromissos isolados das empresas não geram os mesmos resultados positivos.  

A discrepância entre promessas empresariais e realidades

No início deste ano, o Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) junto à Mighty Earth publicou um estudo minucioso sobre os compromissos individuais relacionados ao desmatamento das principais empresas ligadas à soja no Brasil. Foram analisadas sete corporações sob quatro critérios: robustez dos compromissos assumidos, rastreabilidade dos produtos, casos de não conformidade e transparência. O resultado foi preocupante; nenhuma delas alcançou dois terços da pontuação máxima estabelecida.

O relatório indica compromissos frágeis com linguagem vaga, falta de metas claras e datas inconsistentes para o corte relacionado ao desmatamento nas propriedades. Além disso, notou-se uma rastreabilidade insuficiente na cadeia produtiva e pouca transparência nas informações prestadas pelas companhias.

Os riscos enfrentados pela Amazônia sem um compromisso firme do setor sojeiro

O abandono desses compromissos pode trazer consequências irreparáveis para as florestas amazônicas. 

Atualmente existem 9,1 milhões de hectares na Amazônia passíveis de legalização para cultivo de soja – uma área equivalente ao tamanho de Portugal – além disso, 13 milhões de hectares ainda cobertos por vegetação nativa dentro das fazendas já dedicadas à produção agrícola estão ameaçados. Para se ter uma ideia da magnitude dessa questão, estima-se que cerca de 2 milhões de campos de futebol possam ser desmatados nos próximos dez anos sem a Moratória vigente.

Outro ponto crítico é que ao expandir suas áreas cultiváveis por meio do desmatamento, a própria produção sojeira compromete os sistemas climáticos essenciais para seu desenvolvimento. Pesquisadores chamam isso de “suicídio climático”, um modelo produtivo insustentável.

O Cerrado brasileiro nunca teve um acordo semelhante ao da Moratória da Soja e perdeu quase metade da sua vegetação nativa. Embora a cultura da soja tenha avançado nessa região, os benefícios econômicos não foram igualmente compartilhados; segundo um relatório do Greenpeace sobre MATOPIBA (região compreendida entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), em 2018 mais da metade dos municípios continuava sendo marcada pela pobreza extrema.

Participe! Pressione pelo compromisso com o desmatamento zero!

Com o fim das garantias relacionadas à origem sustentável da soja nos produtos disponíveis nas prateleiras dos supermercados devido à falta desse acordo setorial essencial agora resta apenas a pressão pública por mudanças significativas das empresas.

Você também pode ajudar pedindo por
Soja Sem Desmatamento, assinando nossa petição.

Exija das grandes traders como Cargill e Bunge que reestabeleçam seus compromissos com o zero desmatamento na Amazônia garantindo rastreabilidade desde as fazendas até os pontos finais comerciais. Além disso, cobre dos bancos e varejistas para não financiarem ou venderem produtos cuja origem não possa ser comprovada como livre de práticas destrutivas ao meio ambiente.

By Ação Verde

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