Sete anos após o desastre do óleo, comunidades pesqueiras do Nordeste enfrentam os efeitos persistentes

Após o maior desastre ambiental já registrado no litoral do Brasil, pescadores e marisqueiras continuam enfrentando consequências que afetam seu trabalho, renda e os territórios que habitam. Simultaneamente, a exploração de petróleo avança na Foz do Amazonas.

Em agosto de 2019, o litoral nordestino começou a ser atingido por manchas de petróleo, que se espalharam rapidamente por praias, manguezais e estuários ao longo da costa brasileira nos meses seguintes. Esse incidente impactou 11 estados brasileiros e é reconhecido como o maior desastre ambiental dessa natureza no país, conforme indicado no 3º Relatório sobre Conflitos Socioambientais e Violações de Direitos Humanos em Comunidades Tradicionais Pesqueiras, elaborado pelo Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP).

Entretanto, a gravidade desse desastre não se mede apenas pela extensão geográfica das manchas. Para aqueles que vivem da pesca artesanal, um mar poluído representa uma significativa perda de renda, diminuição nas vendas de pescado e uma ameaça a um modo de vida baseado na relação cotidiana com as águas. O relatório ressalta que todos os elos da cadeia produtiva da pesca artesanal foram afetados e que as repercussões sobre a saúde e as condições de vida das comunidades podem se estender por um longo período. Sete anos depois, essa narrativa ganha novos desdobramentos.

Enquanto os danos do derramamento persistem, a exploração petrolífera avança na Foz do Amazonas

Parece até uma questão de superstição, mas sete anos após o ocorrido, novos desastres são anunciados ou, no caso da Foz do Amazonas, parecem estar programados. Neste agosto, a Petrobras revelou ter encontrado hidrocarbonetos no poço Morpho, localizado no bloco FZA-M-59 na Bacia da Foz do Amazonas. Esse poço está situado cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, em águas com aproximadamente 2.886 metros de profundidade. A companhia ainda precisa concluir a perfuração e realizar estudos para avaliar o volume descoberto e determinar a viabilidade de uma futura exploração comercial.

Esse anúncio ocorre em um contexto onde já houve registros de vazamentos durante atividades exploratórias na região. Em janeiro de 2026, durante a perfuração do poço Morpho, ocorreu um vazamento de fluido de perfuração a cerca de 2.700 metros de profundidade. Informações divulgadas na época estimavam que o volume liberado chegava a aproximadamente 15 mil litros de fluido tóxico.

Diante disso, as comunidades costeiras têm motivos para temer novos episódios de contaminação. A Foz do Amazonas abriga áreas onde vivem comunidades que dependem da pesca e outros recursos costeiros, como as regiões de Oiapoque e Calçoene, importantes centros comerciais para a atividade pesqueira no Amapá. Um possível vazamento poderia comprometer diretamente essa economia local.

Conforme informações coletadas pela reportagem junto às colônias pesqueiras locais:

a pesca artesanal é responsável por cerca de 70% da economia em Oiapoque.

A contaminação pôs em risco tanto o mar quanto a vida daqueles que dele dependem 

Quando as manchas de óleo atingiram o litoral brasileiro, pescadores, marisqueiras e moradores das comunidades costeiras não esperaram pelas respostas lentas do governo.

Frente à ineficácia das ações governamentais, diversas comunidades pesqueiras se mobilizaram para desenvolver suas próprias estratégias. Em localidades como o litoral norte de Pernambuco e o leste do Ceará, além das Reservas Extrativistas da Bahia, pescadores formaram brigadas dedicadas ao monitoramento e à limpeza das áreas afetadas.

Além disso, foram criadas iniciativas comunitárias para conter o avanço do petróleo utilizando conhecimentos locais – como fez a Campanha Mar de Luta. As comunidades também buscaram parcerias com universidades para investigar a qualidade do pescado e estabelecer redes informativas que ajudassem a monitorar o avanço das manchas e combater informações falsas.

“Quando eu olhava assim pro mar, vinham aquelas ondas… chegava a vir brilhando. Eu ainda peguei peixe morto. Meu Deus do céu… tudo morto.”

Marleni dos Santos, marisqueira em Canavieiras (BA), que participou das limpezas durante o derramamento no Nordeste.

A atuação destacada das mulheres nas comunidades pesqueiras foi crucial nesse processo organizacional diante da crise que ameaçava seus modos tradicionais de vida. No entanto, essa mobilização ainda gera consequências até hoje; muitas dessas mulheres pagaram um preço alto ao serem utilizadas como barreiras físicas na limpeza do petróleo.

“Depois dos três meses limpando o petróleo, comecei a ter gripes fortes e dificuldade para respirar… afetou meus pulmões. Quando vou ao posto de saúde não recebo o atendimento adequado. E sei exatamente quando tudo começou: foi pelo contato com o petróleo.”

Izabel Cristina Chagas, marisqueira em Passo de Camaragibe (AL), que participou das limpezas em 2019.

O impacto desse desastre também é evidenciado pela magnitude territorial: as manchas chegaram a mais de mil pontos ao longo do litoral nordestino e nos estados do Sudeste. Suas consequências não se limitaram ao desaparecimento visível das manchas nas praias.

O Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) aponta em seu Relatório que famílias ligadas à pesca foram algumas das mais prejudicadas economicamente devido à queda na renda e na comercialização dos produtos pesqueiros. Resíduos permanecem em áreas distantes da costa entre 2019 e 2020 indicando que os efeitos desse derramamento devem ser vistos como um processo contínuo ao invés de um evento isolado. 

Sete anos depois: ainda há dívidas a serem saldadas

A experiência documentada pelo CPP revela que essas comunidades não foram meramente vítimas; elas conseguiram criar:

  • redes solidárias
  • brigadas para limpeza
  • conhecimentos técnicos
  • monitoramento dos seus territórios;
  • pressão sobre autoridades públicas por respostas efetivas.

Desde 2020, a Campanha Mar de Luta tem acompanhado os efeitos desse derramamento enquanto denuncia a falta de ação estatal e luta pela justiça socioambiental. O movimento também passou a monitorar novos vazamentos além da expansão da exploração petrolífera nos territórios pesqueiros.

A lição deixada pelo derrame em 2019 sobre o petróleo na Amazônia

O incidente envolvendo o derrame no Nordeste ilustra que os riscos relacionados ao petróleo vão além da plataforma ou mesmo durante um vazamento. Quando o óleo atinge uma região específica, suas consequências afetam ecossistemas inteiros, economias locais e modos tradicionais de vida. As comunidades ainda vivem sob os impactos dessa contaminação enquanto novas fronteiras exploratórias continuam avançando.

Novos incidentes com óleo ocorrem diariamente nas águas brasileiras.Somente em 2026 já foram registrados 347 acidentes além de 880 quase acidentes marítimos.

*Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) datados em 27/08/26

“A origem do óleo nunca foi esclarecida definitivamente. Portanto, não é superstição afirmar que sete anos trazem azar. E é exatamente esse azar não resolvido que parece estar sendo arriscado mais uma vez pelo Brasil na Foz do Amazonas; uma região extremamente sensível onde correntes naturais podem espalhar qualquer vazamento para outras partes da costa brasileira ou até países vizinhos.”

alerta Mariana Andrade,
porta-voz dos Oceanos no Greenpeace Brasil.

A Petrobras ainda precisa avaliar se essa descoberta no poço Morpho será viável comercialmente. Contudo, para aqueles que habitam as costas amazônicas, uma pergunta permanece relevante sobre o futuro desta região: 

Até onde vai um risco aceitável quando está em jogo o território e a vida daqueles que trabalham nas águas?

Em 2019, pescadores tiveram que adentrar mares contaminados para lidar com as consequências por algo alheio à sua vontade. Sete anos depois, suas memórias deveriam servir não apenas como recordações passadas; elas precisam influenciar decisões sobre o futuro.

Porque esperar pelo próximo crime ambiental para agir não é uma solução viável.

O verdadeiro objetivo deve ser prevenir novas ocorrências! Assine nossa petição por uma Amazônia livre do petróleo! 

A entrevista com Izabel Cristina Chagas foi realizada com apoio da Assessora de Imprensa do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), Louise Campos.

By Ação Verde

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