Uma rica variedade de ingredientes, como jambu, vinagreira, erva-de-jabuti, alfavaca, cará, crueira, mangará, beldroega e flores comestíveis, pode ser encontrada tanto na floresta quanto nos quintais das comunidades que cercam o Rio Manicoré, localizado no sul do Amazonas. Esses produtos não são apenas alimentos; eles contêm modos de preparo, histórias e saberes que podem enriquecer as experiências oferecidas aos turistas e impulsionar o turismo de base comunitária na Amazônia.
O reconhecimento desse potencial é uma das iniciativas promovidas pelo Idesam em conjunto com a Central de Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (CAARIM), com o apoio da The Nature Conservancy (TNC Brasil), no âmbito do Projeto TNC Manicoré. Uma das atividades realizadas foi a oficina “Sabores da Floresta: PANC e Hospitalidade”, que ocorreu nos dias 8 e 9 de agosto, reunindo moradores das comunidades do Território de Uso Comum (TUC) do Rio Manicoré.
A oficina foi realizada no Hotel de Selva Caiaué, situado no rio Atininga, em Manicoré (AM). O evento proporcionou uma experiência prática sobre como aproveitar os alimentos disponíveis na natureza e nos quintais. Durante a atividade, foram utilizados ingredientes locais para elaborar pratos que destacam o valor das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) e contribuíram para a valorização da cultura alimentar regional.
Orientada pelo agroecólogo Alexandre Victor e pela chef Laís Rebeca, a formação estimulou discussões sobre a conexão entre alimentos, território e cultura. O objetivo era integrar saberes tradicionais com técnicas culinárias modernas, ampliando as opções para transformar ingredientes locais em pratos que revelam os sabores e a identidade do Rio Manicoré.
“Cada ingrediente traz consigo histórias, receitas e conhecimentos passados através das gerações. A diversidade que encontramos nos quintais e nas florestas evidencia um grande potencial gastronômico. Existem castanhas, cupuaçu, açaí, peixes de água doce, farinhas, frutas e ervas que muitas pessoas desconhecem”, afirma Alexandre.
Ele ressalta que essa diversidade representa uma oportunidade valiosa para desenvolver o setor gastronômico utilizando conhecimentos e recursos disponíveis localmente. “Esse potencial sempre esteve presente; no entanto, muitos desses alimentos e saberes foram esquecidos ao longo do tempo. Resgatar essas tradições é uma maneira de valorizar nossa cultura local e promover uma economia circular dentro do próprio território”, complementa.
A experiência de redescobrir os ingredientes também foi vivenciada pelos participantes da oficina. Dinalva Miranda dos Reis, uma moradora da região do Rio Manicoré, compartilha que a formação permitiu ao grupo perceber de forma diferente as plantas e alimentos já presentes no cotidiano deles.
“Aprendi muito sobre as plantas que temos em nossos quintais. Eu e minhas colegas conhecíamos várias delas, mas não sabíamos que eram comestíveis. O curso nos ajudou a aproveitar melhor os recursos disponíveis na nossa região”, relata Dinalva.
A oficina também introduziu novas formas de preparo para ingredientes familiares nas comunidades. Dinalva menciona o exemplo do cará-roxo, tradicionalmente cozido com café; durante a atividade ele foi utilizado na preparação de nhoque. A macaxeira também recebeu novas abordagens além das receitas habituais como bolos e beijus.
Outro aprendizado importante foi o uso integral dos alimentos. “Uma coisa que me surpreendeu foi aprender a fazer refrigerante utilizando casca de abacaxi e manjericão. Antes, desperdiçávamos essa casca; às vezes até mesmo a fruta estragava. Agora sabemos como utilizar esses ingredientes de maneiras diferentes para criar pratos saborosos”, explica Dinalva.
No âmbito do Turismo de Base Comunitária, essa conexão vai além da alimentação servida. A origem dos ingredientes utilizados, os métodos de preparo adotados e as histórias ligadas aos alimentos trazem uma nova dimensão à experiência dos visitantes, permitindo uma imersão no estilo de vida das comunidades locais.
“A gastronomia é um elemento fundamental para fomentar o protagonismo comunitário e fortalecer o turismo. Comer o que é produzido pela comunidade e aprender diretamente com quem prepara esses pratos transforma uma visita simples em algo mais significativo. Isso gera relações mais profundas entre visitantes e comunidade”, enfatiza Alexandre.
A troca de saberes não se limitou apenas aos ensinamentos dos facilitadores; os próprios participantes compartilharam suas experiências durante a oficina. O agroecólogo destaca que um aspecto crucial da atividade foi perceber como ela também proporcionou um espaço para resgatar conhecimentos já existentes nas comunidades locais — como o uso da vinagreira na preparação de peixes salgados.
“As pessoas estão dispostas a compartilhar suas experiências; ninguém guarda conhecimento apenas para si. Elas querem ensinar seu modo particular de fazer as coisas. As comunidades possuem muitos dos saberes necessários para prosperar; nosso papel é apoiar esse processo ao valorizar esses conhecimentos locais”, observa Alexandre.
A hospitalidade desempenha um papel vital nesse contexto. Receber visitantes implica não só oferecer infraestrutura adequada mas também compartilhar narrativas culturais por meio da culinária local. Dinalva acredita que os novos aprendizados possibilitam aprimorar as experiências oferecidas aos visitantes que chegam ao Rio Manicoré.
“Agora estamos mais preparados para receber pessoas de fora em nossa comunidade; especialmente no que diz respeito à alimentação. Podemos apresentar um cardápio elaborado por nós mesmos usando ingredientes frescos da região. Esse aprendizado foi essencial porque conseguimos aprimorar nossas práticas culinárias com produtos locais”, conclui Dinalva.
A combinação entre gastronomia, hospitalidade e saberes tradicionais reforça as iniciativas desenvolvidas na área rural visando um modelo turístico onde as próprias comunidades desempenham um papel ativo na criação das experiências oferecidas aos visitantes enquanto valorizam seus recursos naturais e culturais.
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