A União Europeia implementa restrições rigorosas para milhares de substâncias presentes em produtos cosméticos. Dentre as preocupações, destacam-se os desreguladores endócrinos, que são compostos químicos capazes de afetar o sistema hormonal humano. Uma investigação realizada na França analisou como o uso de produtos cosméticos e de higiene impacta a exposição a esses elementos.
Cem mulheres, com idades variando entre 18 e 30 anos, participaram do estudo ao reduzir a quantidade de cosméticos utilizados. Em relação aos itens de higiene, como sabonetes e cremes dentais, elas trocaram seus produtos habituais por opções fornecidas pela equipe de pesquisa, todas livres de fenóis sintéticos, parabenos, éteres glicólicos e ftalatos. Embora a interrupção do uso tenha durado apenas cinco dias, os resultados mostraram uma diminuição significativa nos biomarcadores de exposição.
A análise dos níveis urinários antes e após o período revelou uma queda de quase 22% no ftalato de monoetila, um composto comum em fixadores de fragrâncias. O metilparabeno, um conservante, apresentou redução de 30%, enquanto o propilparabeno também foi encontrado em menores concentrações após a intervenção. Todos esses compostos são considerados potenciais desreguladores endócrinos.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Inserm (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França), da Université Grenoble Alpes e do CNRS (Instituto Nacional de Ciências Biológicas Avançadas).
Nicolas Jovanovic, doutorando na Universidade de Grenoble Alpes e autor do estudo, comentou sobre os achados: “O que chama a atenção é a rapidez das reduções observadas em apenas cinco dias. Isso era esperado devido à rápida eliminação dessas substâncias pelo organismo. É um resultado encorajador, especialmente considerando as suspeitas sobre os efeitos dessas substâncias na reprodução, no sistema hormonal e no desenvolvimento.”
Bisfenol A
Um dos achados mais notáveis foi a redução de 39% na concentração urinária do bisfenol A (BPA), uma substância considerada “de altíssima preocupação”. Este componente é amplamente conhecido por suas implicações negativas à saúde. Comum na produção de plásticos, muitos recipientes para alimentos ostentam o selo “BPA Free”, indicando que estão livres dessa substância.
Desde 2005, o bisfenol A está proibido na França como ingrediente em produtos cosméticos e itens de higiene pessoal. Sua presença pode ser atribuída à contaminação durante o processo produtivo ou ao uso de materiais para embalagem. Apesar das restrições rigorosas em relação aos materiais que entram em contato com alimentos na Europa, não há regulamentação equivalente para embalagens utilizadas em produtos cosméticos e cuidados pessoais, conforme explica Claire Philippat, pesquisadora do Inserm e coautora do estudo.
Diversas substâncias químicas, tanto naturais quanto sintéticas, podem causar desregulação endócrina. O bisfenol A é reconhecido por sua capacidade de perturbar o sistema hormonal além de potencialmente afetar a reprodução e o desenvolvimento infantil.
No Brasil, desde 2011 é proibida a fabricação e importação de mamadeiras contendo bisfenol A. Para outros materiais que entram em contato com alimentos, houve uma redução no limite permitido para migração específica da substância: passou de 3 mg/kg para 0,6 mg/kg com o intuito de minimizar a exposição oral da população.
Consumidor versus regulação
Produtos que contêm substâncias suspeitas quanto aos seus efeitos nocivos à saúde estão amplamente disponíveis no mercado; no entanto, os consumidores não têm facilidade para identificá-las sozinhos. Claire recomenda reduzir essa exposição “utilizando menos produtos e escolhendo aqueles que não contenham essas substâncias prejudiciais”.
Além das iniciativas individuais dos consumidores, os pesquisadores sublinham que a implementação de normas regulatórias sobre as composições dos produtos e suas embalagens poderia reduzir significativamente a exposição da população como um todo.
“Sem um rótulo obrigatório que indique a presença de substâncias perigosas nos cosméticos, torna-se bastante complicado para os consumidores interpretarem as embalagens e evitarem aquelas que contêm componentes indesejados”, destaca Remy Slama, diretor da pesquisa no Inserm.
