A qualidade do ar na cidade de São Paulo pode impactar gravemente a saúde renal dos seus habitantes, elevando o risco de hospitalizações por doenças relacionadas aos rins. Essa conclusão foi alcançada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com instituições internacionais, e divulgada na revista Scientific Reports.
O estudo analisou 37.170 casos de internação devido a doenças renais na cidade entre os anos de 2011 e 2021. Os dados foram correlacionados com informações sobre poluição do ar, enfatizando as partículas finas conhecidas como PM2.5, que são amplamente reconhecidas pelos seus efeitos prejudiciais à saúde humana.
Os achados sugerem que a exposição contínua a níveis elevados de PM2.5 pode triplicar o risco de hospitalização por doença renal crônica, com um impacto mais acentuado em homens entre 51 e 75 anos. Além disso, para condições específicas como glomerulopatias, o risco pode ser até cinco vezes maior em jovens expostos a altas concentrações de poluição.
Mesmo níveis considerados relativamente baixos, próximos ao limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de 15 µg/m³ em um período de 24 horas, já estão associados a um aumento no risco de lesões renais agudas em homens.
Relação entre poluição do ar e saúde renal
Os pesquisadores explicam que os efeitos nocivos da poluição sobre os rins ocorrem indiretamente, mas são significativos. “As partículas finas podem entrar na corrente sanguínea e se acumular nos rins. Como esses órgãos têm a função de filtrar o sangue, tornam-se vulneráveis a essas substâncias”, afirma a Dra. Lucia Andrade, uma das autoras do estudo e professora na Faculdade de Medicina da USP. Ela acrescenta que “ao se acumularem nos tecidos renais, essas partículas agem como agentes estranhos e provocam inflamações que afetam o funcionamento dos rins”.
Desigualdade urbana e saúde pública
A pesquisa identificou uma concentração maior de internações em áreas urbanas densamente povoadas e com tráfego intenso, que é a principal fonte das emissões de PM2.5 em São Paulo.
Com mais de 7 milhões de veículos circulando na capital, os níveis de poluição frequentemente ultrapassam os padrões internacionais recomendados.
Os especialistas afirmam que residir em regiões com alta exposição à poluição deve ser considerado um fator adicional no risco para doenças renais, assim como outras condições como hipertensão, obesidade e tabagismo.
Necessidade urgente de políticas públicas
O estudo ressalta que os impactos da poluição atmosférica são muitas vezes subestimados devido à sua natureza contínua e invisível.
Os autores defendem a implementação urgente de políticas públicas eficazes para reduzir as emissões e melhorar a comunicação dos índices de qualidade do ar junto à população.
“É essencial considerar o ambiente em que o paciente vive durante uma avaliação clínica. A exposição à poluição do ar deve ser vista como um componente significativo no processo diagnóstico”, declara a Profa. Dra. Lucia Andrade.
Enquanto não há avanços significativos nas estruturas necessárias para mitigação da poluição, os pesquisadores sugerem monitorar os índices de qualidade do ar e tomar precauções pessoais em dias críticos, como evitar exercícios ao ar livre e limitar a exposição prolongada.
Mais detalhes sobre o estudo
A pesquisa intitulada Chronic PM2.5 exposure and increased risk of hospitalization for kidney disease in São Paulo, Brazil examinou dados hospitalares e indicadores ambientais ao longo de dez anos, demonstrando a correlação entre poluição do ar e doenças renais na metrópole paulista.
O artigo completo pode ser encontrado na Scientific Reports.
