Cinco indícios de que é hora de repensar o uso do celular

Iniciar a visualização de um filme e, em questão de minutos, pegar o celular repetidamente. Esperar o elevador e, como reflexo automático, acessar uma rede social. Após um dia de oito horas em frente ao computador, retornar para casa e passar mais algumas horas conectado ao smartphone. Essas situações são comuns na rotina de muitas pessoas e, embora possam parecer inofensivas quando analisadas isoladamente, quando se tornam comportamentos automáticos e frequentes, podem sinalizar que a relação com as telas está impactando negativamente o cérebro, o corpo e até mesmo os relacionamentos interpessoais.

Esse alerta se torna ainda mais relevante à medida que aumenta o tempo que os indivíduos passam diante das telas. No Brasil, quase 90% da população com idade acima de 10 anos possui um celular, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Informações da Comparitech indicam que os brasileiros gastam em média 9 horas e 13 minutos por dia conectados à internet, enquanto a média global é de 6 horas e 40 minutos.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 na revista Frontiers in Psychiatry, que analisou 21 estudos com mais de 548 mil participantes, encontrou uma correlação entre cada hora adicional de uso diário de telas e uma redução de três a cinco minutos no sono. Além disso, constatou-se que a cada hora exposta às telas, há um atraso médio de aproximadamente 13 minutos no horário habitual de dormir e uma maior predisposição a sintomas relacionados à insônia.

É crucial não apenas contar quantas horas se passa em frente às telas, mas também perceber quando esse uso começa a afetar as atividades diárias. Especialistas como o neurologista Matheus Gomes, o ortopedista Eduardo Novak e o psicólogo Pedro Rujano, dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, identificaram cinco sinais comuns que podem indicar a necessidade de uma reavaliação dos hábitos digitais.

5 sinais de uso excessivo do celular

1. Você não consegue assistir a um filme sem pegar o celular

Começar um filme e logo em seguida verificar mensagens ou redes sociais pode refletir uma rotina marcada pela constante troca de estímulos. O neurologista Matheus Gomes ressalta que essa prática pode prejudicar a habilidade de concentração em uma única atividade. “A pesquisa mostra que quanto maior o número de interrupções durante uma tarefa, pior será o desempenho ao tentar retomar essa atividade”, explica.

2. Você desbloqueia o celular mesmo sem notificações

Ainda que o celular não tenha recebido nenhuma notificação visível, a tela é conferida quase automaticamente. O psicólogo Pedro Rujano destaca que apenas a quantidade de tempo gasta no dispositivo não é suficiente para determinar se há um problema subjacente: “Sinais críticos incluem dificuldade contínua em interromper o uso do aparelho, sensação de falta de controle sobre ele, necessidade constante de checar o celular repetidamente e irritação quando não se tem acesso ao dispositivo”, alerta.

Portanto, mais importante do que contabilizar horas na tela é perceber se ainda existe uma escolha consciente sobre seu uso. “A questão essencial não é ‘quanto tempo você passa no celular?’, mas sim ‘quem realmente controla esse tempo?’. Quando alguém percebe que já não consegue decidir conscientemente quando usar ou deixar o aparelho de lado, isso indica uma significativa perda de autonomia”, acrescenta Rujano.

3. Até momentos curtos são preenchidos pelo celular

Seja num elevador ou enquanto aguarda em filas ou restaurantes: utilizar o celular durante qualquer intervalo pode transformar esse hábito numa resposta automática ao tédio ou à falta do que fazer. O psicólogo enfatiza que sentir tédio não é necessariamente algo negativo; na verdade, pode abrir espaço para reflexão pessoal e criatividade.

Esse comportamento ganha novas dimensões quando interfere nas interações sociais. “Interromper constantemente uma conversa devido às notificações transmite a mensagem de que as informações recebidas na tela são mais importantes do que as interações pessoais”, destaca Rujano.

4. Você troca o computador pelo celular para relaxar

Após um dia inteiro trabalhando no computador, mudar para vídeos ou redes sociais pode aumentar ainda mais o tempo em frente às telas justo no momento destinado ao descanso. “Simplesmente trocar um tipo de tela por outra não significa descanso real para o cérebro. Na verdade, alguns estudos sugerem que usar o celular como forma de relaxamento pode ser até mais prejudicial do que outras formas passivas de descanso”, afirma Gomes.

Essa mudança na rotina pode resultar em dores de cabeça frequentes, distúrbios no sono e sensação geral de cansaço mental. O neurologista observa que fatores como postura inadequada e exposição à luz azul das telas podem contribuir para esses efeitos adversos. “A exposição prolongada às telas está ligada à fatiga mental — um preço pago pelo cérebro por permanecer em estado constante de alerta”, reforça.

5. Seu corpo começou a apresentar desconfortos

Dores no pescoço, cansaço nos ombros ou até formigamento são sinais físicos comuns após longos períodos utilizando dispositivos eletrônicos. O ortopedista Eduardo Novak explica: “Segurar um smartphone leve parece inofensivo; no entanto, manter os braços nessa posição sem apoio por longos períodos equivale a levantar pesos continuamente”.

A postura também desempenha um papel importante nesse contexto: enquanto a cabeça humana pesa entre 4 e 5 quilos quando está alinhada corretamente, essa carga poderá aumentar significativamente quando inclinada em ângulos extremos — chegando até 30 quilos dependendo da inclinação. Novak alerta sobre sintomas nos membros: “Dificuldades motoras ao segurar objetos leves podem indicar problemas nos nervos”, conclui.

Como mudar esse ciclo sem abrir mão da tecnologia?

A exclusão total das telas não é uma opção viável para quem trabalha com dispositivos eletrônicos. Novak sugere pausas rápidas entre dois e três minutos após períodos contínuos de trabalho entre 30 a 45 minutos; além disso, recomenda pausas mais longas — cerca de 10 a 15 minutos — após duas horas consecutivas usando computadores ou smartphones. “Movimentar-se regularmente durante essas pausas ajuda a aliviar a tensão acumulada”, orienta.

No cotidiano, Rujano aconselha estabelecer momentos livres da presença do celular: refeições sem aparelhos eletrônicos presentes ou horários específicos para responder mensagens são exemplos práticos disso. Desativar notificações irrelevantes e manter o smartphone fora do quarto durante à noite também contribuem para essa mudança positiva. “Retirar simplesmente o dispositivo sem substituir por algo significativo geralmente leva rapidamente ao retorno aos hábitos anteriores”, observa Rujano.

A transformação desejada não precisa iniciar com contagens cronometradas; ela deve surgir da maneira como as tecnologias impactam nossas vidas diárias. “Talvez uma pergunta crucial seja: ‘o que você está deixando passar enquanto permanece conectado?’”, conclui Rujano.

 

 

By Ação Verde

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