Compreenda como a crise climática, intensificada por fenômenos como o El Niño, eleva o custo de vida e por que investir na preparação das cidades é mais econômico do que a reconstrução após desastres
Se o fechamento das contas no final do mês se tornou um desafio constante, saiba que você não está sozinho. A crise climática tem contribuído para o aumento dos preços em supermercados, eleva as tarifas de energia e compromete nossa rotina diária.
Visitar o supermercado e se surpreender com os altos preços de itens como tomate, café ou feijão, perceber a conta de luz aumentando devido à bandeira vermelha ou perder horas no trânsito devido a chuvas inesperadas são situações comuns para quem reside em áreas urbanas brasileiras.
Eventos climáticos extremos, como enchentes, ondas de calor e secas severas estão se tornando mais frequentes e intensos. Esses fenômenos afetam a produção e a logística de alimentos, além da disponibilidade de água nas cidades, impactando também a saúde pública e a geração de energia.
Um imposto (quase) invisível
Quando uma seca intensa reduz os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, as termelétricas, que são mais caras e poluentes, entram em operação. Ao mesmo tempo, chuvas excessivas ou temperaturas extremas prejudicam a produção agrícola, especialmente de hortaliças, grãos e frutas. Com uma oferta limitada no mercado, os preços disparam.
A infraestrutura urbana e as vias de transporte também são fortemente impactadas por esses eventos climáticos extremos, encarecendo toda a cadeia logística. Estradas obstruídas por deslizamentos ou ferrovias afetadas por inundações atrasam as entregas e aumentam os custos do frete e dos combustíveis. Esses valores são repassados ao consumidor final nas mercadorias que chegam até nós.
Dessa forma, cada evento climático extremo se comporta como um imposto invisível, onerando ainda mais tudo o que consumimos.
Como o El Niño pode impactar seu orçamento
O cenário financeiro pode piorar com a previsão de um El Niño intenso. Esse fenômeno altera padrões de chuvas e temperaturas em diversas regiões do Brasil, elevando o risco de enchentes no Sul e secas severas no Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
Especialistas associados ao Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV alertam que um El Niño forte pode comprometer as safras de 2026 e 2027, afetando culturas importantes como feijão, trigo, milho, soja, frutas e hortaliças. A variação na quantidade de chuva aumenta as perdas nas lavouras e traz dificuldades para o plantio e colheita.
No entanto, as consequências não ficam restritas às fazendas. Enchentes podem interromper rodovias e ferrovias enquanto secas severas diminuem os níveis dos rios usados para transporte. Com uma produção prejudicada e logística mais cara e lenta, aumentam os custos relacionados à produção, transporte e distribuição dos alimentos. No final dessa cadeia produtiva, esse aumento chega aos supermercados afetando o orçamento de milhões de famílias brasileiras.
O impacto real: desde os supermercados até o mercado de trabalho
Uma pesquisa realizada em Porto Alegre pelos Cartórios de Protesto do Rio Grande do Sul revelou as consequências econômicas das enchentes na vida da população após a tragédia ocorrida em 2024:
- A dor financeira: O estudo apontou que 56% dos porto-alegrenses consideraram o aumento dos preços dos alimentos como o principal fator que impactou seus orçamentos. Além disso, 44% afirmaram ter deixado de pagar alguma conta no primeiro semestre de 2024; dentre esses casos, um terço atribuiu a inadimplência aos alagamentos.
- Custo da energia e transporte: Os combustíveis foram apontados como responsáveis por 20% da alta nos preços; já a conta de luz contribuiu com 12% desse aumento.
- Insegurança econômica: Para 43% dos entrevistados, o maior temor passou a ser a perda do emprego ou da renda familiar.
Ninguém deseja viver constantemente em “modo sobrevivência”, lutando para equilibrar contas enquanto torce para que as condições climáticas não piorem. Todos têm direito a viver com dignidade e segurança para planejar seu futuro.
A prevenção é sempre superior ao remédio
Apesar do conhecido ditado popular, a gestão pública brasileira tem seguido uma abordagem oposta quando se trata das questões climáticas.
No último decênio, foram gastos mais de R$ 11 bilhões apenas para lidar com danos pós-desastres climáticos no Brasil. Em contraste, apenas R$ 4 bilhões foram investidos em medidas preventivas e adaptações urbanas no mesmo período.
Isto significa que estamos gastando quase três vezes mais tentando resolver problemas do que investindo na prevenção deles. A questão não é a falta de dados científicos ou alertas sobre os riscos; trata-se da decisão política em arcar com custos exorbitantes depois dos desastres ao invés de proteger nossas cidades antecipadamente.
A transformação já começou
A boa notícia é que muitas soluções estão sendo implementadas. Em comunidades historicamente marginalizadas, pessoas estão tomando iniciativas proativas para promover mudanças. Coletivos locais estão desenvolvendo soluções práticas e acessíveis que fomentam resiliência econômica.
A seguir algumas iniciativas inspiradoras que estão mudando bairros inteiros:
- Projeto Horto Natureza (RJ): Em resposta às ameaças constantes de enchentes e às pressões históricas por remoções forçadas, esta comunidade tem trabalhado na proteção do Rio dos Macacos através da limpeza do leito fluvial além da criação de uma horta comunitária. Eles realizam atividades educativas sobre meio ambiente enquanto garantem direitos básicos como coleta adequada de lixo através da mobilização coletiva.
- Coletivo Utopia Negra e Escola quilombola (AP): Este coletivo junto à escola quilombola implementou um projeto inovador que demonstra uma solução acessível para problemas relacionados ao saneamento básico no estado.
Tais projetos evidenciam que já possuímos tecnologia e conhecimento suficientes para adaptar nossas cidades; o desafio agora é transformar essas ações locais em políticas públicas amplas.
Cuidar do futuro das cidades é menos custoso se começarmos imediatamente
Mudar essa realidade requer um esforço conjunto. É essencial unirmos nossas vozes para exigir que aqueles em posições decisórias desenvolvam soluções junto à população local e destinem recursos adequados para políticas públicas direcionadas à proteção da nossa saúde geral além da redução nos custos diários.
Afinal, preparar nossas cidades hoje custa bem menos do que reconstruí-las amanhã.
Assine esta causa e faça parte da mudança:
A Adaptação Climática é urgente: proteja vidas agora!
